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Análise · Corridas de carros

Conduzir sem destino num mundo aberto de bolso

Dez minutos de espera na paragem do autocarro chegam para uma corrida inteira, e é aí que o Rally Horizon se comporta melhor do que aparenta. Basta abrir, escolher um carro na garagem e sair para a estrada aberta sem passar por menus intermináveis. O mundo continua a existir mesmo quando não há objetivo nenhum: dá para vaguear pelo deserto até o telemóvel pedir descanso. Como preenchimento de tempo morto, funciona; como jogo de rally a sério, nem tanto.

Supercarro a atravessar duna de deserto em corrida aberta
Supercarro a atravessar duna de deserto em corrida aberta
Garagem do jogo com carro em destaque e afinações
Garagem do jogo com carro em destaque e afinações

Aspeto visual e som

Os cenários mudam de material com frequência suficiente para que a viagem não canse: areia, neve, lama e asfalto alternam-se, e cada superfície reage de maneira distinta debaixo dos pneus. Os carros são o ponto onde o trabalho de modelação se nota mais, com reflexos, interiores desenhados e detalhe de carroçaria acima do que o género costuma oferecer nesta escala.

O som é a metade mais convincente do conjunto. Cada modelo tem o seu registo de motor, e a diferença entre subir de rotação num carro pesado e num carro leve ouve-se sem esforço. Já a banda sonora de fundo desaparece da memória em poucos minutos, e o ruído ambiente do mundo aberto é escasso: fora do motor, há pouco a acontecer nos ouvidos.

Para quem funciona melhor

Quem procura simulação de rally com notas de navegador e etapas cronometradas vai sair desiludido, porque o registo aqui é o da condução livre com corridas à mistura. O público certo é outro: alguém que goste de conduzir por conduzir, de percorrer um mapa grande sem obrigações e de ir juntando carros novos ao longo da campanha. Também serve bem quem tem sessões curtas e irregulares, porque o progresso está fatiado em provas independentes e nada se perde por interromper a meio. A média de 4,5 na Google Play encaixa nesse retrato: agrada a quem entra sem exigências e desilude quem traz uma lista delas.

Os primeiros minutos

A entrada é rápida e pouco explicada. Em vez de um tutorial longo, o jogo coloca a pessoa ao volante quase de imediato e deixa que a curiosidade faça o resto. Isso tem contrapartida: opções como a afinação e a personalização ficam escondidas atrás de ícones que ninguém apresenta, e a primeira meia hora passa-se a descobrir onde estão as coisas. A Zona do Festival, que concentra acrobacias e recompensas espalhadas pelo mapa, só faz sentido depois de se perceber que o mundo aberto não é um cenário decorativo.

Ainda assim, a curva de aprendizagem é curta. Ao fim de três ou quatro provas já se sabe travar a tempo e usar o travão de mão nas curvas fechadas de terra.

Desempenho no telemóvel

Num aparelho recente, a fluidez é estável e a distância de visão mantém-se decente mesmo a alta velocidade. Em equipamento mais modesto, o que cede primeiro é o carregamento de elementos distantes: árvores e edifícios aparecem tarde, e nota-se sobretudo nas zonas de neve, onde o contraste é maior. O consumo de bateria é considerável para um jogo que convida a ficar horas no mapa, e o aquecimento surge antes do que seria confortável. Convém baixar a qualidade gráfica logo no início, em vez de esperar pelos primeiros engasgos.

Multijogador e companhia

É neste ponto que a proposta se estreita. Nada no material do jogo aponta para salas competitivas, corridas simultâneas ou qualquer forma de confronto direto entre pessoas: o mundo aberto é povoado por adversários controlados pela máquina e a campanha percorre-se sozinho. Quem entra à procura de companhia vai encontrar um jogo solitário, e essa é uma escolha de desenho, não um esquecimento. A alternativa possível é a mais antiga de todas, passar o telemóvel a outra pessoa e comparar tempos na mesma prova.

Há também um efeito prático em não existirem outras pessoas em pista: o mundo aberto fica silencioso ao fim de algumas horas, e a Zona do Festival, que devia ser o coração social do mapa, funciona como um parque vazio.

A favor

  • Mundo aberto variado em superfícies, com deserto, neve, lama e asfalto distintos
  • Som de motor bem trabalhado, com registo próprio para cada carro

Reservas

  • Interface esconde afinação e personalização atrás de ícones que ninguém explica
  • Nenhuma forma de corrida direta contra outras pessoas, apenas adversários da máquina
  • Aquecimento e consumo de bateria elevados para um jogo de exploração longa
  • Campanha de mais de oitenta níveis repete estruturas de prova com frequência

Veredito

Como companhia para intervalos curtos, o Rally Horizon cumpre: entra depressa, corre bem em aparelhos recentes e tem um mapa suficientemente variado para justificar voltas sem destino. O que não tem é profundidade, porque a condução é permissiva, a campanha repete estruturas e a ausência total de confronto entre pessoas fecha uma porta que muitos esperariam encontrar aberta. Fica como um jogo de condução agradável e descartável, do género que se abre por hábito e se fecha sem se dar por isso. Quem quiser exigência ao volante terá de procurar noutro sítio.

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